quinta-feira, 28 de março de 2019

Casa de Vó



Lembro daquele cheiro que acaricia as narinas
Dispostas a umidificar a memória 
Lembro de tocar o concreto adornado de musgos feito moldura
E gotas de chuva salpicarem minhas mãos 
Lembro do concordar das folhas com as prosas na varanda
Lembro dos raios de sol buscando espaço entre suas flores e suas fiéis abelhas
Lembro do barulho de água jogada pelo balde ungido com restos de refeições 
Dos disparos de fogos e foguetes calando mordidas em milhos verdes
Lembro dos sorrisos alegres
Fartos de companhia
Lembro das doçuras das orações que provavam sabedoria
Lembro da cidade velha nos rostos dos leiteiros ao meio dia
Das gincanas e jogos alegres que despertavam a vizinhança 
Dos abraços suados pra comemorar essa alegria
Da saudade que eu sinto de toda essa poesia
Me emociona que o tempo só vive agora na minha memória que não se explica
Mas queria rogar
Volte infância querida
E ela me responde
“Seja grato, ainda vai sentir falta do dia que me escreve

Agora outros provam a minha cortesia”

quarta-feira, 13 de março de 2019

Reconectando



Eu tinha um hábito na infância. Olhar por um tempo não marcado, mas imagino, longo pro espelho. Pro fundo dos meus olhos. Não sei porque fazia isso. Mas sei que me fazia bem. De alguma forma, a memória que tenho é que via algo muito bom. Ontem de alguma forma me sentia distante desse garoto. Confiante no país que vivia. Meus pais eram pobres. Eu tinha duas irmãs. Talvez seis anos. Queria aprender música. Muito. Mas não havia a possibilidade, nem financeira nem de alguma escola acessível. Nem de professor. Improvisava. Pegava um guarda-chuva e fingia ser um baixo. Meus amigos curtiam e queriam formar essa banda imaginária. Caminhar comigo nesse sonho coletivo. 

Ontem me senti distante. Hoje sou músico. Toco mal o baixo. Mas me viro. Sou um pianista razoável. Componho. Escrevo letras de músicas que me encantam. Costumo falar: mesmo que estivesse na plateia, estaria muito feliz em ver o show que faço com meus amigos e companheiros. Mesmo assim, uma esperança se perdeu... Em algum lugar a luta pra sobrevivência sobrepôs a compaixão. Em algum lugar a luta por sobrevivência vem sobrepondo irmandade, caridade e um ombro amigo. Um ouvindo atento. Uma alegria espontânea.

Sinto que sou reflexo de um tempo e uma civilização que não socializa. Mas se desafia.


Tomara que isso seja produtivo. Tomara que isso gere algo melhor do que somos hoje. Porque a sombra que se aproxima parece querer nos afundar todos num ódio ansioso, que não sabe nem qual o próximo passo da civilização.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Esperança dos Alforriados

Bainha
Sustentando lâmina e cabo
Avisa
Que o tempo fechou mais cedo

Ainda que a rainha
Conduza o norte dos vassalos
Restará ainda
Quem resiste ao seu descaso

Se seus doutores apitam
Que a ordem será dada
Levanto lâmina acima
Contrariando o ditado

Sem minutos
Conto segundos
Para que todos avancem ao largo

Olho firme
Cabelo preso
E grito

“Sou libertado”

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Fábula Moderna





O marido chega em casa mais cedo e a esposa assustada 
pergunta:

“Uai você não tinha reunião?”

“Meu chefe desmarcou” responde ele aliviado.

A esposa feliz como se tivesse saído da tempestade agarra o marido e dá uns amassos nele...

“O telefone tá tocando” avisa o marido.

“Não atende, vem cá! Quem vai ligar a essa hora?”

O marido escorregando das mãos da mulher atende o telefone - “Alô! Hã? Alan?!... Ela tá. Peraí.”

A mulher atende encabulada: “Oi!?... Oi Alan... Tudo bem? Não imagina... De jeito nenhum... Sim. Me liga amanhã. Ok, tchau!”

O marido pergunta inocente: “Quem é Alan?”

“Ai amor, um rapaz que quer me entrevistar sobre meu trabalho. Fomos a um café anteontem...” O telefone interrompe:

“Alô!” Atende a mulher. “Não. Ligou errado querida!”

O marido pergunta: “Quem era?” 
“Uma mulher... Demorou a responder... Queria falar com outra pessoa. Engano.”

O celular do marido toca: “Oi... Hã... Ah, ok, amanhã... Te chamo amanhã chefe!”

“Ai, deixa eu falar com ele pra agradecer!”

O marido tenta evitar, mas a mulher toma o celular dele:

“Quem é?!”... Silêncio... E a mulher olha na tela e vê que é um número desconhecido...

“Fala com ela! É a que ligou aqui agora! Cachorro!” Batendo espanta o marido pra fora, xingando a oitava geração da mãe dele...

O telefone toca. 

“Alô!” Atende cuspindo fogo.

“Ah, oi Alan...” se recompondo.

“Quer tomar uma café agora? ... Não toma café a noite? ... Então qualquer coisa! ... É! No motel de preferência! Hã?! ... É Gay? Tá bom querido! Vai pra puta que pariu!”

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Moral: mais vale um pássaro na mão que dois voando.


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Deixe à Paulo o que é de Paulo

Coelho
Gato
Pato

Cansei de ver o mundo em cores rasas e escassas
Cansei de ver pelos olhos da fechadura
Um tiro que sai pela culatra

Querem me atingir
E ferem a própria mão
Riso e escárnio de mim
Piada de mau gosto

Deixe-os
Servem pratos de dor e assim
Assam seus sabores podres

Deixe os vampiros assim
Onde merecem


E voe como um anjo

Miséria aos Miseráveis

Não
Ninguém vai me dizer como me sentir
Não
Ninguém vai me dizer que foi amor
A verdade aflora
O ódio vira escudo de defesa
E arma negra da vingança toma cor

Quanto tempo perdido
Quantas migalhas desperdiçadas

Os porcos brincam com pérolas
Gostam de cadáveres
E não sabem ver o por-do-sol

A eles agora jogo o veneno da discórdia
E sua carne apodrecerá no esgoto

Dai aos porcos o que lhes é precioso
E seja preciso em amar
Quem realmente for merecedor

O mundo ri da sua miséria
E pra isso não seja misericordioso
Deixe essa tarefa aos elevados

E entenda de vez a sua dor 


quarta-feira, 12 de março de 2014

Convocação



Criaram bestas feras
Fizeram-lhes colher esmolas
Depois...
Alistaram seus exércitos
Convocaram suas tropas

No final tudo dá certo
Se não houve troca

Trocam sim, informações sigilosas
Espalham?
... A mentira morta

Deixam centenas boquiabertas
Sem que se faça prova

No final tudo dá certo
São só joias jogadas fora
Aos porcos da guerra
Aos confins da mediocridade

Das mazelas humanas