quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Pra quebrar um pouco o ritmo...

Pra dar uma geral e quebrar um pouco o ritmo do conto, vou falar sobre uma coisa que me é essencial.

Ter uma visão de que na vida, dentro dos relacionamentos pessoais é necessário, sempre que possível - e isso quer dizer o mais possível que puder - ser SINCERO.

A sinceridade dá um tom na relação de filho, filha, pai, mãe, companheiro, companheira, amigo, amiga de igualdade. Sempre temos a sensação de que estamos pisando num chão firme, que não ameaça cair a qualquer momento.

Claro. Porque a individualidade é exercício social. Ninguém é capaz de viver isolado. Não? Por isso a comunidade se une. Por isso temos amigos, família.

O liame que divide a individualidade dos relacionamentos pessoais é a sinceridade. Que deve ser ofertada com cuidado, em momentos e lugares propícios.

Versos:

União

Passo certo
Medido a tempo
Promove o caminhar
Leva bagagem para ficar
Fixa a raiz
Levanta do chão, acampamento, casa, casamento

Perfeita união de momentos
Individuais e frutos do partilhar
Do querer
Do buscar
O eterno desenvolver do ser

A sábia maneira de fazer
Do dia
O amanhecer
Do corpo, doar

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Café Amargo - 5º capítulo

... 5 ...
“There´s no way!”

Adriano volta-se para o diretor comercial.

“Sir, senhor. Por favor. Considere nossa proposta. Não tem como existir preço mais baixo para a qualidade do nosso café verde. Você não está comprando café de Rondônia. Mas de Ouro Fino. Troque a qualidade então.”

“Mr. President. Sorry. Presidente.” Em um sotaque notavelmente alterado pelo nervosismo. “Não é meu problema sua incidência de impostos. Vocês devem contornar a situação. Preciso: qualidade e valor baixo. Compreende?”

E agora se vira para o diretor de finanças. “Malfadada família turca” – pensa. “Só cuidam de finanças”... “E qualidade...” Se rende. E passa à analogia com o americano, diretor de compras da Five. “Talvez por isso, árabes e americanos só entendam o valor das balas de metralhadoras e fuzis” – Voltando de seus pensamentos torpes dá por encerrada a reunião. E promete investigar uma forma de baixar os preços com a equipe.

“Podemos burlar a incidência de impostos...” Fala ao ouvido de Adriano, o advogado da empresa. “Rondônia. Não é má idéia. Eles estão com uma excelente política de créditos tributários.”

“Falsificar notas?”

“Não. Investir no governo de lá. Mas somente no governo.” – Escapa o advogado.

“Ouro Fino de Rondônia. Não vai ser fácil...” E olha para o americano saindo.

“Podiam mandar alguém com português melhor. Não negocio em outra língua em São Paulo... Acham que estamos bajulando. Quando devem nos bajular.”

“Você fez bem”. Diz Astolfo. Filho de Ahzan. Diretor financeiro e promissor novo patriarca da empresa.

“Não podemos entregar nosso produto de mão beijada. Meu pai escolheu bem o nosso presidente.”

Adriano sente nojo. Como se fosse mero fantoche. E novamente o garçom lhe vem à cabeça. E novamente pensa na noite em que transou com Laura. Em Lídia. Cercada pela amiga sacana.

“Ramos?!” Vira-se para o advogado.

“Vamos degustar um choop?”

E ao sair já liga para Ronaldo.
“O sacana deve ta rindo da minha cara até hoje...”

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Café Amargo - 4º Capítulo

... 4 ...

O suor escorre pelos olhos. A respiração é ofegante. “160 bpm” – o visor do polar indica. No ambiente, mais ou menos 300 pessoas faziam a mesma coisa. Corriam. Pra afastar problemas. Pra manter o corpo ativo. Pra demonstrarem poder. Através do corpo.

“Não existe ganho sem dor.” Pensava ele na máxima das academias. E como doía.

Mas o que mais doía, não era o corpo. Era saber que sua vida estava assim: mecânica. Como se tivesse ligado o piloto automático e não soubesse onde desligar.

Lembrou-se da faculdade. Dos pais que não mais via. Nem mesmo em datas importantes. Como esta: seu aniversário. 14 de outubro de 2003. Fazia então trinta e cinco anos.

Há quinze anos estava estudando, na FGV.

Lembra de chegar em casa, depois de uma noite maravilhosa com Lídia.

“Então? Como foi a noite?” Perguntou seu pai, Arnaldo, sentando-se na mesa para tomar café.

Adriano tira a jaqueta e responde – “Boa. Com final ruim. Não suporto a sensação de ter que esperar muito pra me juntar a ela. E toda vez que a deixo em casa sinto um vazio.”

O senhor estende a mão pedindo a manteiga – “Filho. O vazio é inerente ao homem. Se juntar a ela não irá preenchê-lo. Acredite!”

Adriano olha para o café.

“Tá adoçado?”

“Sim. Como sempre.”

“Minha mãe não tem jeito. Assim tenho que sair mesmo. Ou viro uma bola quando começar a trabalhar.”

Sorri. E percebe que quinze minutos se passaram. Assim como a dor. E lembra-se do sabor do café de casa. Sabor que o acompanhou desde a infância.

Novamente sorri – “Americanos. Não sabem fazer café...”

E uma preocupação vem à mente. A negociação com a rede Five. E o grande negócio que teria que fechar nos próximos dias. Pensa em Ahzan. Seu patrão e dono da Arábica. Pensa na família dele. Pensa no que vem pela frente.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Café Amargo - 3º Capítulo

... 3 ...

Entrando pelos corredores, como há cinco anos já fazia de forma única, Adriano percorre os olhares intrigados dos funcionários. Deixa a pasta cair sobre a mesa de sua secretária, puxa a maçaneta e entra em sua sala.

“Mais um dia nesse antro.” Reclama da má sorte. Para novamente a olhar o espelho. Tem vontade de se desenhar. Olha pro outro lado. A gravura de Picasso o intriga. O faz pensar na sua mediocridade.

Volta os olhos para a tela do seu computador. Analisa a cotação das ações da Arábica, a maior distribuidora de café verde do Brasil para o exterior. Não existia café industrializado que se contivesse no rótulo: brasileiro, sem que pelo menos passasse por uma negociação com eles.

“Preciso de um novo relatório para os controladores! Preciso mostrar pro mercado que essa cotação ainda está abaixo do real valor.” E novamente o Picasso. Novamente ele não se contenta em manipular informações. Queria ser mais abstrato. Menos preciso. Mais embaçado.

“Senhor?” Entra a secretária nova em sua sala. E de pronto, Adriano a interrompe:

“Você sabe usar o interfone?... Diga!”

“A senhorita Lídia ligou. Perguntou se o senhor gostaria de almoçar com ela.”

O silêncio se fez. Novamente. Em menos de duas horas. E novamente, Adriano passa por cima do silêncio.

“Diga a ela que realmente não estou com tempo essa semana. E me traga a Gazeta, não chego aqui sem que a Gazeta esteja na mesa.”

“Sim... Senhor.”

Altiva. Porém com humildade a secretária fecha a porta.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Café Amargo - 2º capítulo

Divirtam-se!...

... 2 ...



São Paulo. Mais de 20 milhões de habitantes. Encravada na mata atlântica, uma pedra. Várias pedras... Milhões de pedras... Calor sufocante? Não, por incrível que pareça esse era um outono frio. Mesmo com tanto concreto. Mesmo com tanto gás tóxico: monóxidos, dióxidos e outros óxidos de carbono, enxofre...

“Nossa... Dez pras seis?” Adriano levanta-se. Olha para o espelho. Barba. Começa a fazê-la. Toca o telefone. Toca como se estivesse dentro da cabeça dele. Que dói. Uma metástase de dor que se espalha pelo corpo. Para no estômago e volta a subir. Um redemoinho.

“Cadê esse telefone?”

“Alô?” A Suave voz feminina ecoa pelo corredor.

“Ora? Será possível?” Pensa ele. Que olha de novo para o quarto e agora vê os sinais de uma boa noite, não na memória, mas que se delatava em cada canto do quarto.

“Quem é que eu trouxe pra cá hoje?” E em meio os pensamentos, tenta lembrar-se da noite anterior. Lembra de Ronaldo. Lídia. Laura... “Laura?”

“Oi gatão!” A loira atlética acaricia seu pênis. O corpo do homem estremece. Ele se refaz. O sorriso irônico volta aos seus lábios antes preocupados.

Continua a fazer a barba.

“Lídia pergunta se você está. O que eu digo?”

“Diga que ela ligou para o telefone errado. Que é erro da operadora. Coisa mais normal hoje em dia, ora.”

E enquanto a malfeitora desvia a atenção da amiga para o erro, ele se junta ao corpo dela. Acaricia suas coxas. Começa a beijá-la. No mesmo momento ela entende o gracejo. Desliga o telefone, se vira e começa a ofender o ego do rapaz.

“Imagina. Pra tanto amor. Tanta paixão. Até que ela desiste bem... Ou não será que o receptor do carinho desmerece tanta atenção? Afinal, tratou a amiga dela tão bem?...”

“Se acha que não mereço... Porque ainda me procura? Não se cansa de bancar a sacana só pra alguns e parecer gentil com a maioria...” A frase causa efeito em ambos... O silêncio se instaura por alguns segundos. Mas ele novamente interrompe: “Que foi? Só porque comigo não precisa fingir, né? E ser quem você realmente é? Olha, você já teve o que queria. Agora tenho que ir. Hoje é sexta e tenho mais o que fazer.”

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Contos Sobre o Café.




Em vias de botar quente neste blog que estava, quase inoperante, aí vai o primeiro capítulo do primeiro conto: "Café Amargo"

Sirvam-se à vontade!


Café Amargo


... 1 ...

Sentado, mesa a mesa com quem ele menos queria encontrar naquela noite, seria sonho? Seria devaneio? Efeito da sexta rodada de chopp? Não. Era pouco ainda... Ele sorria, tentando entender todas as voltas que já dera na vida... Uma a menos, não ia fazer falta. “Deixe que ela encontra o que procura” – Pensou logo, na tentativa de afastar o pensamento de ir sentar-se com ela, os pseudo-amigos e a escória que a observava.

Desde que o outono caíra, tem sido assim. Adriano Souza Inácio tem se metido em voltas sem começo e sem fim. Depois que abandonou a vida ao lado de Lídia, sua até então, companheira de farra, de bebidas, de noites longas sobre a cama, de viagens, de uma infinidade de prazeres que seria impossível descrever em poucas linhas...

As voltas aproveitavam da boa vontade do homem em sorver cada minuto como se fosse o último. Como se a morte estivesse à espreita e Adriano brincava com ela. Levava uma vida ao lado da morte, como se essa, nunca fosse bater a sua porta. E se isso acontecesse encontraria um sorriso jocoso dizendo: “Por que demorou tanto?”

“Antes a morte, do quê Lídia...”. Dizia. Desdenhando da própria sorte.

Mas aquela não era uma noite comum. Lídia Aquino Moura tinha saído das catacumbas. Certo que sua expressão era detestável. Mas ele conhecia o olhar. E o que havia por trás dele. Daqueles olhos cor-de-mel. Eles escondiam uma fantasia pela vida. Que ora se manifestava em festa. Ora em depressão profunda. Desconhecida. Assim a qualificavam até mesmo suas amigas mais íntimas. E Laura. Ela estava lá. “Lídia, você é imprevisível. Louca e imprevisível!”

Mas desviou seu olhar de Laura. Loira. Atlética. Diferente de Lídia que envergava um corpo extremamente esbelto, beirando a anorexia. Laura Antonelle era dessas mulheres desperdiçadas pelo alto nível intelectual. Que beirava a caretice. “Vai, olhe pra outro lugar!” – Pensou Adriano, se envergonhando de ter dado atenção demais pra quem mais encorajou-o a deixar de fazer a amiga colher frutos malditos da relação.

Pega um pedaço de papel. Laura já o percebe, sorri para amiga. Dá um tapinha nela e cochicha ao ouvido. “Mas que entediante. Aquela vaca pensa que estou ainda afim da Lili!” – Fala para o parceiro, Ronaldo, turbando a paz do amigo que estava a flertar com outras garotas ali.

“Ronaldo!... Porra! Presta atenção aqui...” – “Já falei... Não compensa... Não... Não me diga que vai escrever bilhetinhos??? Fala sério! Que tempo você tem hem? Levanta e vai falar com aquelas garotas ali...” Interrompe.

É certo. Que durante o bate boca entre os dois, Adriano retira da cabeça a idéia de rabiscar palavras surdas e passa a desenhar seu rosto no espelho. Tinha inveja. Do desprendimento de certos artistas. Desprendimento das formas perfeitas. Lembra de Picasso. Lembra de Rembrant. Lembra de Monet. E lembra que deixou o desenho, a pintura, a arte, pra se embrenhar em uma bela faculdade particular, gastar horrores, pra servir de “garçom” em uma empresa exportadora. Era o que ele dizia. Preferia horas desenhando a fio. Desenhos medíocres. A prestar contas. De suas decisões para a empresa. Dos resultados. Dos cafés que tomava... E que servia... Ria. Um sorriso saudavelmente irônico. Afinal, não existia melhor distribuidora de café, do que aquela em que trabalhava.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Pra Variar... Versos (Meus)

Fonte de Luz:


Seu olhos são como orquídeas

Que se abrem na escuridão

Seu lábios soam finos

Linguas que não falam em vão

Seja certa, seja precisa

E ensina tua razão

Que seja intensa, não fria

Que seja cheia de paixão

E... Quando puder

Olhe a esquina

Te espero sob chuva

O som... Trovão!

(Eu, 21 de dezembro de 2007)